segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sobre amizades antigas, coelhos e galinhas

Tenho duas amigas que conheço há praticamente 20 anos. Passei o domingo com elas. É interessante conhecer alguém há tanto tempo. Torna-se uma família que Deus te dá um pouquinho mais tarde. Um laço forte, sólido. Essas amizades tiveram uma forte participação na construção da minha personalidade. Passamos por tantas coisas. Desde sempre. É uma sensação tão boa ter esse conforto. Não um amigo de rede social, não um amigo superficial, mas um amigo que já te viu realmente, tua essência. Quem tu foste, quem tu estás te tornando. Não sei explicar totalmente esse sentimento de ter a certeza que algumas pessoas sempre estarão, de uma forma ou de outra, em tua vida. Para falar sobre qualquer coisa. Para apoiar, para diminuir os pesos, para conversar sobre os assuntos mais bizarros. Uma amizade que não enfraquece pela distância. Que faz a diferença, que soma. Que traz paz.

Pensei nisso ontem. Mediante a estas tragédias recentes, é ainda mais fácil perceber a fragilidade das “coisas”. As pessoas perderam seus locais de trabalho, informações, equipamentos. Tudo pode sumir de um momento para o outro. O que ainda permanece são as pessoas, são as memórias, são os sentimentos. A verdade é que as pessoas mudam, se adaptam, reconstroem. O importante é aquilo que as motiva a acordar novamente, a dar um segundo passo, a continuar. O importante, pelo menos para mim, são aqueles que estão na minha vida, o que passamos juntos, nossas memórias, nossas histórias.

Essa tarde feliz de domingo passamos nos Morangos Hidropônicos, na Rota do Sol. Passamos com galinhas robustas, coelhos queridos, uma nenê sorridente e social dançando para nós e moranguinhos embalados por músicas antigas.       





sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Infância




O cheiro gostoso de chuva invade a sala... adoro cheiro de chuva. Lembro quando era criança. Acumulava um pouquinho de água na sacada da cozinha da minha vó e eu já brincava que estava pescando. Pegava uma vara de pescar e ficava pendurada na janela fingindo que os três centímetros de água acumulada eram um rio. Ou pegava uma sombrinha do Piu piu que eu adorava e ficava cruzando o lote da minha vó até a casinha. A casinha era um lugar que meu vô guardava madeiras, ferros e ferramentas e eu usava para brincar, é claro, de casinha, no fundo do lote. Eu levava um boneco de quando minha mãe era criança, o Bobi, e brincava de casinha lá durante horas e horas nos dias chuvosos. Uma vez, cruzando o lote de volta (eu sei que falando assim parece que é uma travessia imensa, mas para uma criança as proporções são diferentes), tinha um bruto de um sapo na porta de entrada do porão. Eu gritei tanto. Por alguma razão quando eu era criança diziam que, se o sapo fizesse xixi nos teus olhos (o que era meio impossível se pensarmos racionalmente, uma vez que o xixi teria que ser tri alto no mínimo), tu ficarias cega. Minha vó desceu as escadas correndo coitada, achando que alguém estava me torturando. Ela diz até hoje que a impressão dela era que as escadas não terminavam nunca. E deu de cara comigo gritando e o rospo (como os gringos chamavam os sapos) me olhando, meio assustado. Hoje em dia os sapos sumiram do lote da minha vó. Ela tem alguns coqueiros, que devem ter mais ou menos a idade da minha mãe. É um tipo bem diferente de coqueiro, na verdade a fruta dele é um coquinho minúsculo. Parece que não há mais muitos por aí. Eu imaginava uma selva super densa a partir desses coqueiros. E no milharam também, no início do ano, quando estavam no auge, bem altos. Mil aventuras.

Isso me faz pensar no Menino Maluquinho. Devo ter lido esse livro inúmeras vezes mais ou menos nessa época. Adorava o filme também. O ator que fazia o menino tinha tudo a ver com o que eu imaginava dele. A essência da infância. Penso nas inúmeras crianças que não tiveram direito a imaginação. Por nascerem em famílias desestruturadas, muitas vezes sem um figura paterna ou materna (ou até mesmo sem os dois), sem alguém que lhe dê o direito de criar suas aventuras imaginárias. E o outro extremo, crianças cuja imaginação foi substituída por jogos eletrônicos e a tecnologia.

Nunca acreditei que uma criança devesse ser muito limpinha. Não me refiro aos hábitos higiênicos, é claro, esses são até uma questão de saúde. Mas acho que toda criança deve ter terra nas unhas, joelhos e cotovelos ralados na areia. Uns arranhões são, no mínimo, indicadores de uma infância saudável. Minha mãe sempre diz que quando eu chegava em casa de criança a vontade dela era me colocar direto no tanque. Tive todos os privilégios de criança: brinquei na rua com minha amiga mais antiga e as vizinhas dela, brinquei de se esconder e se pegar com minha prima e nossos amigos no bairro em que minha vó nasceu, jogamos bola, andei de bicicleta e de patins, mexi na terra tudo o que tinha direito e mais um pouco, comia morango ainda com formigas, depois ainda tive meu querido coelhinho para ser mais um companheiro de aventuras.    

PS: A fotinho é de uma lembrancinha para uma das minhas companheiras de infância.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ansiedade



Eu sou tri ansiosa. Quero ver todas as coisas prontas o quanto antes. Em relação a quase tudo.

Hoje de manhã estava conversando com minha vó sobre árvores. As árvores têm que ser limpas. Eu não sabia disso. O tronco deve ser raspado e lavado para que os fungos e outros bichinhos do mal não matem a árvore. Eu já achei que era para sair limpando os  troncos das coitadinhas. Minha vó me explicou que não, que os troncos das árvores que produzem frutas cítricas devem ser lavados lá por abril. É que nem plantar. Quando eu tenho semente de alguma coisa já quero sair plantando. É claro que não é assim, é claro que cada item tem sua época. Gostaria que todas as pessoas de certa idade escrevessem livros com sua sabedoria, para que ela não se perdesse no tempo. E para que minha ansiedade em ver tudo resolvido não atropele nenhum ciclo.

Uma das coisas que tenho aprendido em relação à ansiedade é que ela vai contra a maior parte dos trabalhos manuais. Por exemplo, a capinha de almofada cuja foto publiquei no sábado. Ela é composta por 09 quadrados de 11,5 cm. Os quadrados são costurados em três fileiras, que depois serão unidas. Essa união de fileiras deve acontecer com muita calma, para que os quadrados fiquem precisamente um sobre o outro. Vocês não sabem o quanto é difícil uma pessoa sempre apressada aprender a se policiar para realizar todas estas etapas vagarosamente.

Para finalizar a capa, ontem bordei dois corações nela com um ponto que aprendi no sábado, o ponto atrás. Outro aspecto maldoso da ansiedade é que ela exige que tu faças algo bem feito, mesmo que seja feito pela primeira vez. Fiz, desfiz, olhei numa revista como ele era para dar uma relembrada e fiz de novo. Não ficou uau, mas a foto abaixo é do resultado final da minha capinha. Agora é só preenchê-la com algum recheio macio e está pronta.

Termino o post de hoje com o dia se despedindo. Infelizmente a foto só revela uma parte da beleza real do momento. Melhor imagem para terminar o dia calminha... 



domingo, 22 de janeiro de 2012

Busca


Não sei se vocês já comeram figo recém tirado da árvore... Se não, recomendo que um dia o façam. É uma delícia. O gosto docinho e fresco dele não tem comparação. Claro, como eu disse em outro post, é uma disputa com os passarinhos para quem consegue alcançar um figo maduro primeiro, mas é uma delícia. Acho que como uns oito ou dez figos numa só vez, de tão bom que é.

A uva faz muitos anos que não como recém tirada da parreira. Mas essas uvinhas bem simples, que nem a que aparece na foto, são muito deliciosas. Meu vô tinha uma parreira há Deus sabe quanto tempo, ainda lembro o cheiro dela nessa época. É delicioso. Bom, é só dar uma volta no Vale dos Vinhedos para senti-lo. E para mim não há melhor uva do que esta.



Falando em coisinhas gostosas, fiz uma aula de patch muito bacana esse sábado na Art & Tecidos. O que rendeu dela é a capinha de almofada que aparece aí em cima (ainda falta um bordadinho nela).

Lendo o Zero Hora deste domingo lembrei da aula. No início do caderno Donna há um pequeno artigo sobre um movimento na Europa baseado no Slow Food, mas a respeito da vida. Diz que as pessoas trabalham cada vez mais para consumir cada vez mais. Consequentemente, têm menos tempo livre e quase nada de auto conhecimento. Resultado: uma vida constantemente mais vazia. Esse movimento procura ir ao contrário disso, para que as pessoas consigam ser mais plenas com realizações que vão além dessa ganância crescente.

Procurar sentido em coisas diferentes, em atividades prazerosas vai a favor de nos conhecermos, de alcançarmos um equilíbrio. Busco pessoas, momentos, sons, sabores, pequenas regalias que trazem um imenso bem estar. Procure o que te faz bem. Raramente isto estará em uma bolsa de grife ou em um carro de luxo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Terapia das Galinhas

O dia é bonito lá fora. Penso nas pessoas que nunca puderam vê-lo. Esses dias estávamos conversando em casa sobre isso. Imagina tu nunca poder ver? Não conhecer o céu, o mar, as estrelas... E até o mais básico, não conhecer as cores, não ver as roupas na hora de se vestir, ou os sapatos... Eu sei, na vida há tantas coisas mais importantes para se ver do que as roupas ou os sapatos, mas eu imagino o básico do cotidiano, que nem me dou conta, o quanto seria difícil sem poder ver. Nem sei como entramos nesse assunto, mas fiquei pensando. Tantas coisas que eu amo fazer que precisam da visão. É claro, muitas pessoas conquistam sua independência apesar das dificuldades, mas de qualquer forma o mundo já é tão difícil para um ser humano dotado de todos seus sentidos, imagina o quanto é cruel para alguém que não consegue enxergar.

Por falar em visão, publico mais uma foto linda da Kassyane Lucena, de duas corujinhas em uma praia do nosso litoral norte. Além do trivial, é uma benção ter a visão para poder ver essas coisas.


Mudando um pouco de assunto, ontem me deu vontade de bordar. Uma das atividades mais terapêuticas é bordar na minha opinião. Acho que já escrevi isso aqui. De qualquer forma, experimentem no final de um dia estressante. Não só bordar ponto cruz tem uma margem de erro muito pequena (e qualquer coisa é fácil desfazer e refazer o ponto), como é suuuper fácil. E a concentração nos pontos é muito mais eficaz do que qualquer calmante. (Na verdade nunca tomei um calmante para ter um efeito comparativo, mas de qualquer forma é super relaxante). Comecei ontem essa toalhinha. Só que já passava das 21h00, então não passei das patinhas das galinhas. Adoro bordar galinhas. Na verdade o bicho é hilário, elas andam constantemente investigando algo (provavelmente a existência de minhocas na terra, mas se tu as observa, parece algo muito mais profundo do que isso) e têm bundas gordas e engraçadas. Adoraria ter uma galinha. Só é triste se elas forem que nem os nossos galos vizinhos nossos do passado, que não tinham uma boa regulação de horário e cacarejavam a todo momento. Acordava às 05h00 para ir para faculdade em Canela, uma escuridão medonha, e o bichos estavam cantando para o além. Enfim... Comecei no bordado e terminei nas galinhas. Acho que por hoje é só.   


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Another cliche...

Um amigo querido me contava sobre Berlim na noite de quinta feira passada, em uma espécie de bistrô muito bacana de Porto Alegre. Ele me contou sobre uma cena em particular de casais dançando em frente ao rio. Assim, numa rua, simplesmente dançando. Imagino o quanto isso proporciona leveza à alma. Ele descreveu Berlim como uma cidade bem organizada, possível de caminhar e andar de metrô a todo momento. Vi fotos de prédios baixinhos e ruas bem cuidadas. Inúmeros museus e passeios encantadores.

Nessa noite nós fomos no pequeno lugar que citei no início do post. Caminhamos e conversamos meio sem rumo em ruas bem lindas de Porto Alegre, com corredores de árvores  velhinhas e imensas. Vimos pelas janelas abertas interiores “engraçados” de alguns apartamentos e jardins maravilhosos e jurássicos. Chegamos neste pequeno estabelecimento no início do cheiro de chuva e fomos recebidos com pétalas de rosas pelo dono do lugar. Nem preciso dizer o quanto adorei.

O que vou escrever agora é mais um clichê. Sei que tenho escrito vários ultimamente. Mas penso que o ser humano busca constantemente a realização pessoal nos lugares errados. As pessoas adquirem dívidas homéricas para sustentar uma determinada imagem enquanto poderiam fazer as mesmas coisas sem tantas marcas famosas, sem tantos badulaques no carro, sem tanta produção. Elas se intoxicam buscando essa eterna “pseudo felicidade” prometida pelo glamour, buscam a solução para suas inquietudes em milhares de “pseudo amigos”, em uma vida social super badalada, em “olhem como sou poderoso, troco de carro a todo ano, tenho todas as últimas tecnologias, todos me conhecem”, em conversas superficiais nas redes sociais.

Felicidade é um conceito impessoal e intransferível, como uma senha bancária. Não é constante, ninguém é Pollyanna o tempo todo. Mas acho que é mais fácil buscá-la em pétalas de rosas, corredores de árvores e danças na beira do rio do que nos lugares onde a superficialidade impera.        

         
PS: Ando meio sem tempo de fazer trabalhos, então essa foto é de um pedacinho de felicidade diferente! That's all folks.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ritual com alma


Acho que, numa viagem, há coisas muito importantes de se visitar. Claro, essa noção de importância e prioridades em um lugar diferente varia conforme a pessoa. Mas há certos itens que considero super bacanas e primordiais de se conhecer. Um exemplo é a feira. Se o lugar tem uma feira, acho demais conhecê-la. Acho que muito da personalidade de uma cidade aparece na feira.

A foto que inicia o post é da feira de orgânicos de Santa Monica, na Califórnia. A feira é uma graça, acontece se não me engano toda terça e sábado pela manhã. Ela tem uma anarquia similar às nossas, com produtores falando em voz alta os preços e ofertas e clientes pechinchando valores. As pessoas circulam com seus carrinhos e sacolas ecológicas (em Santa Monica as sacolas plásticas são ilegais) enquanto provam queijos de vacas felizes, criadas da forma mais natural possível (e o queijo é delicioso, by the way, quase uma manteiguinha de tão cremoso), frutas, geleias, mel...


Ótimo perder-se em meio a cebolinhas, salsinhas, alfaces, caquis, brócolis, entre um milhão de outras frutas e verduras. E as flores, ai, tão lindas as flores... Algumas bem engraçadas, parecem pequenos repolhos esnobes. Sensacional. O que também é ótimo é que nas bancas há fotos e histórias das famílias produtoras. Ou seja, além de tudo é um programa com alma.

O ritual todo é muito feliz, as pessoas ficam circulando vagarosamente entre as banquinhas, divertindo-se entre as inúmeras possibilidades, imaginando cardápios e decorações. Ingredientes inusitados surgem nos carrinhos, como promessa de um prato que antes nunca foi preparado. Além do contato com o produtor, cheio de conhecimentos peculiares sobre um mundo completamente diferente. Um processo que vai contra todo o stress, correria e poluição sonora do cotidiano.